Correlações e históricos de resultados orientam a engenharia há décadas. Mas quem garante o projeto é o ensaio realizado.
Por Kairo Fracassi e Cleitton Pereira
Estimar o módulo de resiliência a partir do CBR ou da compressão simples é uma prática comum em projetos de pavimentação. Esses ensaios são mais rápidos, mais baratos e fazem parte da rotina de qualquer laboratório. A pergunta é: até onde essa estimativa é confiável?
Para responder com números, reunimos os resultados emitidos pelo nosso laboratório em 2026: 760 ensaios de módulo de resiliência de solos compactados na energia intermediária, comparados ao CBR da mesma amostra, e 2.750 ensaios de solo-cimento, comparados à compressão simples do mesmo teor e idade de cura.
O resultado mostra que as correlações apontam a direção certa, mas nem sempre acertam o valor de que o projeto precisa.
1. Por que o módulo de resiliência importa
Durante quase toda a sua vida útil, o pavimento está longe de romper. Ele trabalha deformando-se um pouco a cada passagem de veículo e voltando à posição original. O módulo de resiliência (MR) mede justamente essa resposta: a rigidez do material sob carga repetida.
Com o MeDiNa, o método de dimensionamento nacional adotado pelo DNIT, o MR passou a ser o principal dado de entrada do projeto. É a partir dele que se calcula quanto cada camada vai se deformar e, com isso, quando o revestimento tende a trincar por fadiga.
O CBR e a compressão simples medem outra coisa: a resistência do material no momento da ruptura. São informações valiosas, mas não descrevem como o pavimento se comporta em serviço.
Por isso, errar no MR tem custo. Um valor superestimado leva a camadas mais finas do que o necessário e a um pavimento que trinca antes do previsto. Um valor subestimado leva a camadas mais espessas, a mais cimento e a uma obra mais cara.

Figura 1 – Corpo de prova de solo compactado para o ensaio de módulo de resiliência, com o equipamento triaxial de cargas repetidas ao fundo.
2. Como os ensaios são feitos
Os dois ensaios seguem o mesmo princípio: corpos de prova cilíndricos recebem pulsos de carga repetidos, e sensores medem a deformação que se recupera após cada pulso.

Figura 2 – Corpo de prova instalado na câmara do equipamento triaxial de cargas repetidas.
Para solos de subleito, reforço e sub-base, o ensaio segue a norma DNIT 134/2018-ME (MR.S). Para materiais estabilizados com cimento, segue a DNIT 181/2018-ME (MR.C), com resultados aos 7 e aos 28 dias de cura.

Figura 3 – Fixação dos suportes dos medidores de deslocamento, que registram a deformação recuperada a cada pulso de carga.
3. Solos: o CBR indica a tendência, não o valor
Nos solos compactados na energia intermediária, o CBR explica pouco mais da metade da variação do MR (R² de 0,56). A curva acompanha a nuvem de pontos, mas cerca de um ensaio em cada cinco fica fora da faixa de ±30% em torno dela.

Figura 4 – MR × CBR de 760 ensaios na energia intermediária, com a faixa de ±30% em torno da curva ajustada.
Na prática, dois solos com o mesmo CBR podem ter módulos bem diferentes. Para um CBR de 10%, o MR estimado pela curva de cada obra variou de 114 a 206 MPa.

Figura 5 – Corpos de prova de solos diferentes e suas fichas de moldagem: cada material tem a sua própria resposta.
As correlações internacionais mais conhecidas também não resolvem a questão. Para o mesmo CBR de 10%, elas indicam valores entre 77 e 192 MPa, conforme a fórmula escolhida. A regra clássica de Heukelom e Klomp (MR ≈ 10 × CBR) foi a que mais se aproximou, com o MR medido cerca de 20% acima dela. Já a correlação adotada pelo guia americano MEPDG indicou cerca de metade do valor medido.
Essas fórmulas foram obtidas em solos de clima temperado. Os solos tropicais, especialmente os lateríticos, costumam ser mais rígidos do que o CBR sugere.
4. Solo-cimento: correlação forte, com uma ressalva
No solo-cimento, a relação é bem mais firme: a compressão simples explica 84% da variação do MR.
Mas existe uma fronteira clara. Acima de 1 MPa, 98% dos ensaios ficaram dentro da faixa de ±30% da curva. Abaixo de 1 MPa, apenas 28%. São as misturas com pouco cimento, justamente aquelas em que o material está no limite entre um solo melhorado e um solo-cimento.

Figura 6 – MR × compressão simples de 2.750 ensaios de solo-cimento (escalas logarítmicas), com a faixa de ±30% em torno da curva ajustada.
A regra do MEPDG (MR = 1.200 × RCS) subestimou nossos materiais em cerca de 30%. Usada sem calibração, ela levaria a um projeto mais conservador e mais caro do que o necessário.
5. Quando a correlação é local, ela funciona melhor
Se a correlação geral tem limites, uma correlação construída para a própria obra pode ser bem mais precisa.
Um exemplo vem de uma obra rodoviária na região de Campo Grande (MS). Foram 27 ensaios de MR em 22 pontos de coleta, todos em solos arenoargilosos marrom-avermelhados. Nesse conjunto, o CBR explicou 85% da variação do MR, e todos os ensaios ficaram dentro da faixa de ±30% da curva da obra.

Figura 7 – Obra na região de Campo Grande (MS): curva própria da obra (R² = 0,85) comparada à curva geral de todas as obras.
A curva geral, aplicada a essa mesma obra, explicaria apenas 53% da variação. A diferença está na origem dos materiais: mesma geologia, mesmas jazidas e o mesmo processo de compactação. Agrupar os solos apenas por estado ou por rodovia não trouxe o mesmo ganho; ele só aparece quando os materiais são de fato semelhantes.
No solo-cimento, o efeito também aparece. Considerando apenas as 39 obras do Mato Grosso do Sul, em solos da Bacia do Paraná, a correlação com a compressão simples sobe para um R² de 0,90.
Esse é o melhor uso dos dois mundos: alguns ensaios de MR calibram a correlação local, e o CBR ou a compressão simples, mais rápidos, estendem esse conhecimento ao longo do trecho.
Conclusão: correlação para estimar, ensaio para projetar
Os dados de 2026 confirmam o que a prática já indicava. As correlações são úteis em estudos preliminares e no controle de obra, mas não substituem o ensaio no dimensionamento.
No solo, o CBR mostra a tendência, mas o mesmo valor pode corresponder a módulos quase duas vezes diferentes. No solo-cimento, a compressão simples é uma boa referência acima de 1 MPa, mas perde confiabilidade nas misturas mais fracas. E, quando calibrada com ensaios da própria obra, a correlação se torna muito mais confiável.
Em um método de dimensionamento que depende diretamente da rigidez de cada camada, conhecer o MR real do material é o que garante que o pavimento projetado seja o pavimento executado.

Figura 8 – Registro fotográfico e identificação por QR Code de cada corpo de prova, garantindo a rastreabilidade do ensaio.
Correlações e históricos orientam a engenharia há décadas. Mas quem garante o projeto é o ensaio realizado.
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