“Se precisar, peça ajuda!”
Há assuntos difíceis de abordar, mas que se tornam ainda mais difíceis quando permanecem em silêncio. A prevenção do suicídio é um deles.
Todos os anos, setembro amplia uma conversa que precisa continuar durante os outros onze meses: reconhecer o sofrimento, reduzir o estigma relacionado à saúde mental, estimular a busca por ajuda e construir ambientes em que as pessoas encontrem espaço para dizer que não estão bem.
Esse é o propósito do Setembro Amarelo, que em 2026 reforça a mensagem “Se precisar, peça ajuda!”. Neste ano, a discussão encontra também um contexto importante no ambiente profissional.
Desde 26 de maio, está em vigor a nova redação do capítulo 1.5 da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que incluiu expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
São temas que se aproximam pela importância da prevenção e da escuta, mas precisam ser relacionados com responsabilidade. O suicídio é uma questão complexa de saúde pública, enquanto a NR-1 trata especificamente da prevenção e do gerenciamento de riscos relacionados ao trabalho.
Uma campanha que precisa durar o ano inteiro
O dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas a própria campanha reforça que a conscientização não deve ficar restrita a uma data ou a um único mês.
No Brasil, segundo o site oficial do Setembro Amarelo, a mobilização ganhou notoriedade nacional em 2013, por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). A partir de 2014, a entidade passou a divulgar a campanha em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), ampliando progressivamente a participação de instituições, empresas e da sociedade.
Em 2017, ABP e CFM criaram também diretrizes para orientar a participação e a divulgação do Setembro Amarelo. Em 2026, o lema “Se precisar, peça ajuda!” traduz de maneira simples uma das principais mensagens da campanha: diante do sofrimento, procurar ajuda precisa ser uma possibilidade.
No cenário internacional, a Organização Mundial da Saúde mantém para o período de 2024 a 2026 o tema “Changing the Narrative on Suicide”, acompanhado do chamado “Start the Conversation”. A proposta é mudar a maneira como o suicídio é abordado, substituindo silêncio, estigma e desinformação por conversas responsáveis e acesso a apoio.
Perceber, escutar e encaminhar
O suicídio é um fenômeno complexo e de múltiplas determinações. Por isso, não existe uma fórmula capaz de identificar com certeza quando alguém está vivenciando uma crise, e comportamentos isolados não devem ser transformados em diagnósticos.
Ainda assim, algumas mudanças merecem atenção, principalmente quando aparecem em conjunto ou representam alterações importantes no comportamento habitual. O Ministério da Saúde chama atenção para manifestações relacionadas à morte ou ao suicídio, desesperança intensa, isolamento e redução significativa das interações e atividades que antes faziam parte da rotina.
Falas relacionadas ao desejo de desaparecer, morrer ou não acordar também precisam ser levadas a sério.
Quando existe preocupação com alguém, o primeiro passo não é encontrar uma solução para o problema, mas criar espaço para ouvir. Procurar um momento adequado, conversar sem julgamentos e demonstrar disponibilidade são atitudes recomendadas pelo Ministério da Saúde.
Também é importante incentivar a busca por atendimento profissional e, quando possível, oferecer-se para acompanhar a pessoa.
Se houver perigo imediato, a orientação é não deixá-la sozinha e buscar ajuda nos serviços de saúde ou emergência.
No Brasil, o atendimento pode ser procurado nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Em situações de urgência ou emergência, estão disponíveis UPAs, prontos-socorros, hospitais e o SAMU, pelo número 192. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188.
Amigos, familiares e colegas podem formar uma rede importante de apoio, mas esse acolhimento não substitui assistência profissional.
Saúde mental e trabalho: o que mudou com a NR-1?
Falar sobre saúde mental no ambiente profissional não significa atribuir às empresas a função de diagnosticar seus trabalhadores. No contexto da Segurança e Saúde no Trabalho, o foco está em reconhecer e gerenciar condições relacionadas ao trabalho que possam representar riscos à saúde.
É nesse sentido que a atualização da NR-1 se torna relevante. A nova redação do capítulo 1.5, aprovada pela Portaria MTE nº 1.419/2024 e vigente desde 26 de maio de 2026, incluiu expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
Esses fatores passam, portanto, a integrar o processo de identificação de perigos, avaliação dos riscos e adoção de medidas de prevenção dentro do GRO e do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Entre os exemplos apresentados pelo Ministério do Trabalho e Emprego estão excesso de demandas ou sobrecarga, assédio e falta de suporte ou apoio no trabalho. A avaliação, porém, deve estar voltada às condições e à organização do trabalho, e não à investigação da personalidade ou da vida particular dos trabalhadores.
A mudança amplia o olhar sobre Segurança e Saúde no Trabalho e reconhece que prevenção não se limita aos riscos mais facilmente percebidos no ambiente físico. A forma como o trabalho é organizado e as relações construídas nesse contexto também precisam ser consideradas.
Na Suporte Infra, prevenção também passa por escutar
Na Suporte Infra, essa abordagem parte da compreensão de que Segurança do Trabalho envolve também o bem-estar das pessoas e a maneira como o trabalho é organizado.
Para Alex Almeida, coordenador de SSMA da Suporte Infra, situações relacionadas à organização e às relações de trabalho precisam fazer parte desse olhar preventivo.
“Entendemos que Segurança do Trabalho também envolve o bem-estar das pessoas e a forma como o trabalho é organizado. Situações como sobrecarga, excesso de cobrança, conflitos, falta de comunicação e assédio também podem impactar a segurança. Antes mesmo das mudanças na NR-1, já realizávamos DDS, treinamentos, reuniões e acompanhamento das equipes, além do diálogo com as lideranças e das orientações sobre comportamento seguro e respeito no ambiente de trabalho.”
- Alex Almeida, coordenador de SSMA da Suporte Infra
Com a nova redação da NR-1, esse trabalho também vem sendo incorporado de maneira mais estruturada aos processos internos de gerenciamento de riscos.
“Estamos incluindo os riscos psicossociais nas avaliações do PGR, reforçando as conversas com as equipes, orientando as lideranças, melhorando a comunicação e registrando situações que precisam de acompanhamento. A liderança tem o papel de ouvir, orientar, apoiar e dar o exemplo, enquanto os colaboradores também precisam participar, comunicar situações de risco, respeitar os colegas e contribuir com melhorias.”
- Alex Almeida, coordenador de SSMA da Suporte Infra
As medidas descritas por Alex dizem respeito aos fatores de riscos psicossociais associados ao trabalho. Essa distinção é importante: gerenciá-los não significa realizar diagnósticos individuais de saúde mental, mas reconhecer situações relacionadas ao trabalho, avaliá-las e adotar medidas de prevenção quando necessário.
Ao mesmo tempo, a NR-1 reforça um princípio que vai além do cumprimento de uma norma. Uma cultura de prevenção depende de processos e registros, mas depende também de pessoas dispostas a comunicar situações de risco, lideranças preparadas para ouvir e ambientes em que problemas possam ser identificados e tratados.
Setembro termina. A conversa não deveria terminar com ele.
O Setembro Amarelo concentra atenção sobre um tema que precisa permanecer visível durante todo o ano. Informação de qualidade, redução do estigma e acesso a ajuda são partes importantes desse processo.
Dentro das organizações, a atualização da NR-1 acrescenta outra dimensão à prevenção ao reforçar a necessidade de identificar e gerenciar fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Isso não significa estabelecer uma relação direta entre trabalho e suicídio, mas reconhecer que as condições em que as pessoas trabalham também fazem parte da construção de ambientes mais seguros e saudáveis.
No fim, há um princípio que atravessa essas diferentes discussões: perceber, escutar, comunicar e buscar o apoio adequado quando uma situação exige atenção.
Falar sobre o assunto exige responsabilidade. Escutar exige disponibilidade. E pedir ajuda precisa ser uma possibilidade.
Fontes consultadas
- Setembro Amarelo® - Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e Conselho Federal de Medicina (CFM). História da campanha, materiais de 2026 e diretrizes de participação.
https://www.setembroamarelo.com/ - Ministério da Saúde - Prevenção do suicídio. Informações sobre sinais de alerta, acolhimento, busca por ajuda e serviços de atendimento.
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao - Ministério do Trabalho e Emprego - Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
Acessar a NR-1 - Fundacentro - Diretrizes para aplicação da NR-1 com inclusão dos riscos psicossociais.
Acessar as diretrizes da Fundacentro - Organização Mundial da Saúde (OMS) - World Suicide Prevention Day 2026: “Changing the Narrative on Suicide” / “Start the Conversation”.
https://www.who.int/campaigns/world-suicide-prevention-day/2026
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